Desafiando os poderosos

Texto base: Mc 6.30-44. “44Os que comeram dos pães eram cinco mil homens”.

No movimento de Jesus e na Igreja Primitiva, existia um elemento, um agente de interação entre todos. Este agente era nivelador, como a argamassa que une os tijolos e os recobre no reboco de modo que todos se tornam ‘uma parede’.

Este agente nivelador era um dos maiores segredos do ministério de Jesus, que possibilitava que seu ministério fosse tão ímpar, popular, profundo e abrangente. Esse elemento é o ‘partir do pão’ ou, como gosto de chamar, ‘as mesas’.

Vamos pensar um pouco sobre o ministério de Jesus. Se fizermos uma observação sincera, veremos que as mesas ocupam um lugar de destaque. O ministério de Jesus tem ‘tudo a ver’ com refeições. Observe o primeiro milagre em Caná (Jo 2.1-12): Jesus transformou água em vinho! E ainda com um agravante, aquela era possivelmente a água onde os convidados tinham lavado as mãos, e além de racionalmente não potável, na cabeça dos religiosos, estava espiritualmente contaminada.

No período do ministério de Jesus, como sempre, a sociedade era dividida por classes, categorias... Ricos e pobres, escribas, fariseus, saduceus, essênios, publicanos, ‘pecadores’ e sacerdotes... Fazer uma refeição nunca foi simplesmente comer, muito menos nos dias do ministério de Cristo. Naqueles dias, comer com alguém representava associação, comunhão, cumplicidade. Logo, para um judeu, era algo incabível comer com um publicano. Como iria, um mestre da lei comer ao lado de um ‘vendido’, de um explorador? Como um sacerdote ‘santo’ poderia comer com uma prostituta? Não, eles não se associavam. Isso seria o cúmulo, escandalizaria, traria uma pecha sobre os que tal feito realizasse.

Por isso o ministério de Jesus surge de uma forma ímpar! Ninguém até então surgira com uma proposta igual à d’Ele. De fato, eram Boas Novas, ou Boas e Novas notícias. Jesus se levanta (toma atitude), ou melhor, senta-se com o povo, com todo o povo! Jesus não senta apenas com escribas ou fariseus. Não apenas com ‘pecadores’, prostitutas e publicanos. Assenta-se com todos. E por fim, dá um tapa na tradição e come com todos. Ao comer ele está mandando um recado: Através de mim, vocês são um, tem o mesmo valor! Ao igualar as ‘classes’, a quem Jesus ‘ofende’? Ele querendo ou não, ataca as classes dominantes: Os poderosos, os sacerdotes, os entendidos... Pois um sistema de castas sempre criará uma maioria de oprimidos e uma minoria de favorecidos. Jesus derruba o ‘muro de Berlin’ que existia entre as castas e agora as crianças de um lado e do outro podem brincar juntas!

O projeto de Jesus, a Igreja, é o grupo social mais eclético do mundo! Nenhum grupo político, ou religioso ou sindicato do mundo aglomera pessoas tão diferentes como a Igreja. A unidade da Igreja reside em um ponto e partindo desde, cresce, ou pelo menos deveria crescer. Esse ponto é o ponto de sustentação de tudo: Jesus! E espiritualmente, é o grupo mais homogêneo do universo, todos de roupas brancas, lavados pelo sangue de Cristo, santos, resgatados pelo Cordeiro.

Jesus esboçava seu poder unificador nas refeições. A Santa Ceia é uma refeição. Cristo escolheu dois ritos globais de seu Evangelho: Batismo e Ceia. Cristianismo sempre está ligado a refeições. Por quê? Um dos motivos é o forte poder simbólico de uma refeição. Nutrição, serviço, comunhão, identificação, prazer, felicidade e o simples igualar de nível: Todos sentados, olhando uns nos olhos dos outros. Em uma refeição percebemos que todos somos feitos do mesmo pó e precisamos dos mesmos nutrientes para vivermos. A refeição traz um sendo de humanidade.

Quando pessoas que se achavam puras e santas eram convidadas por Jesus a sentar do lado de outras denominadas pela sociedade de ‘pecadoras’, Jesus estava lhe dizendo: No meu Reino, ninguém deve se julgar superior ao outro!

A Igreja Católica possui a crença da transubstanciação, que em suma é a crença que na hora da Eucaristia, o pão se transforma no corpo de Cristo e o vinho, no Seu Sangue. A Ceia de Cristo era uma refeição. A Ceia da Igreja Primitiva também. Logo, a verdadeira transubstanciação, é que nós, em unidade do Corpo de Cristo, celebremos o mistério da Ceia, onde a bebida do cálice se torna o sangue de Cristo no nosso sangue e o pão o corpo de Cristo em nosso corpo. O mistério da Ceia é amalgamar e organizar pessoas disformes e caóticas, no único e sublime corpo de Cristo.

0 comentários:

Postar um comentário

Olá! Deixe aqui seu comentário isso nos ajudar a crescer!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...